Ai meu deus

Quando fico assim, meus olhos andam de um lado para o outro mais rapidamente que o tic-tac do relógio.

Falo das vezes que o medo me abate. A desconfiança. Medos absurdos mas bem reais. Coisa de louco.

Posso estar grávida.

Meu marido pode sofrer um acidente.

Meu filho pode morrer, pode não passar dessa noite.

Minha filha pode morrer, para de respirar.

Podem não passar dessa noite, ou de amanhã, não importa se ele estão absolutamente saudáveis (aparentemente). Cada vez que dou tchau ou boa noite, penso que pode ser a última vez.

Como não sou boba, claro que tento driblar esses medos absurdos. Mas sempre que posso, evito vê-los durante à madrugada e resisto à tentação de ver se estão respirando. Peço para meu marido fazer isso quando vejo que ele levanta durante a noite. Quando eu vou, entro no quarto e só relaxo quando ouço a respiração deles. Não toco na minha filha antes de ter certeza que ela respira, por que se ela estiver gelada, (com aconteceu um dia), não sai nem o grito de tanto pavor.

Uma vez o pai dela estava dando banana para ela e ela se engasgou. O pedacinho era grande demais. Eu matei-o em pensamento da forma mais cruel, chorei feito criança quando tirei o dedo da garganta dela e junto, o pedaço de banana. Filme de terror.

O pai do Gui, certa vez saiu com ele e demorou para voltar. Quando voltaram e ele entrou sem dizer uma palavra, o caminho da sala até a cozinha onde eu estava foi tão longo, a julgar pela duração dos segundos. Quando ouvi os passos dele, sabia que algo tinha acontecido. Mas foi só um machucadinho no pé.

Claro que de ser negligente também estou livre, estou sempre atenta à tudo o que acontece com eles. Se acontecer alguma coisa, dificilmente será por desatenção minha. Não importa o dda que me faz distrair, essa é minha principal atribuição e não me livro dela nem por um segundo.

Quanto à gravidez, é só medo mesmo. Sei lá, tenho medo de que o anticoncepcional não faça efeito, não sei. Só sei que tenho medo. Não importa se é absurdo. Quando vejo estou totalmente em pânico.

Silenciosa, não falo nada para ninguém. Nem para meu marido. Passo por isso todos os dias e tento ignorar. Na verdade, já comentei com ele, mas ele sabendo que sou exagerada, achou que se tratava de uma forma mais extremada de exteriorizar qualquer coisa e por isso não tem noção do tamanho real desses medos e nem sonha que é alvo do meu "cuidado".

Esses são os medos piores, são os mais presentes. Não consigo me livrar deles por completo. Posso diminuí-los, evitar pensar, mas estão longe de ser uma somente uma hipótese, algo que pode acontecer. Uma coisa é cogitar uma possibilidade, outra é ter um medo sobrehumano.

Antes, quando tocava o telefone, achava que poderia ser minha mãe avisando que a Vó tinha falecido, ou talvez meu pai. Esperei isso por anos, e poderia dizer no mais ácido humor que um dia acertei, que um dia a Vó morreu e a mãe ligou. Mas não, a Mãe foi mais esperta, ligou para meu marido e pediu que ele me avisasse. Depois que a Vó faleceu, temo que a Mãe ligue dizendo que foi a vez do Pai. Uma vez ele tentou se suicidar, meu medo é que ele tente outra vez e consiga.

Deve ser por isso que odeio telefone meu telefone tocando, até hoje não me trouxe nada de bom.

Quanto à minha própria morte, vivi esses episódios apenas duas vezes que eu me lembre. Uma, dormia na parte superior de uma beliche (e temi morrer, que ridículo) e a outra, foi quando estava grávida. Pré-eclâmpsia assusta a mais corajosa da mulheres.

Não, não tenho síndrome do pânico. Mas eu bem que queria me livrar desses medos e não passar a vida evitando o telefone, que fica desligado por dias, que me irrita quando toca e temendo a morte das pessoas que eu amo. E não estou falando de medinho, chance remota de acontecer.

São as mais legítimas situações quem que parece que o medo cresce feito erva daninha. Completamente absurdo racionalmente falando, mas tão grande, tão... possível.

Comentários

•SunSamadhi• disse…
Eu fico impressionada de como somos parecidas... eu sinto essa mesma coisa, que começa como um pensamento de um medinho, e se torna num pânico incontrolável em minutos, tenho medo de ser sindrome do panico, mas enfim... escrevi só pra te dizer que isso é normal, espero que passe (pra nós duas)
desculpe o auê disse…
é mesmo, e o quanto antes melhor! Obrigada!
Martini Bianco disse…
"Não, não tenho síndrome do pânico. Mas eu bem que queria me livrar desses medos e não passar a vida evitando o telefone, que fica desligado por dias, que me irrita quando toca e temendo a morte das pessoas que eu amo. E não estou falando de medinho, chance remota de acontecer."


... Sem palavras...
Martini Bianco disse…
E a do telefone também tem a sua semelhança. odeio telefones e celulares. Por trabalhar com eles, me esgotam... odeio isso. E até paciencia para escrever mensagens já a perdi...

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